23 de novembro de 2011

A Pele Que Habito – Pedro Almodóvar


Assim que a última cena termina, fico indignado, pois logo em seguida as luzes são acessas. Em casos como este, o cinema deveria dar mais um tempo, para que a gente possa se recompor. Não, não pode ser, deve haver algum engano, eu quero mais, eu quero muito mais, não é possível que tenha acabado. Como assim? A coisa continua, tenho certeza, quero saber mais de Vera (Elena Anayla)... Mas não tem jeito, o filme acabou mesmo, na sessão assistida ontem à tarde. Ou melhor, não acabou não, continua passando dentro de mim, continua crescendo, crescendo  e me estimulando, e cada cena assistida é lembrada por minha memória, de forma disforme, mas presente em mim desde ontem, me estimulando, me impelindo a pensar cada vez mais nesta obra-prima de Almodóvar . É, o gênio espanhol voltou com tudo neste drama - terror, e os cinéfilos de plantão podem soltar os fogos, pois esta é sua melhor obra desde “Fale Com Ela”, o que convenhamos, não é pouco.
Mas me sinto incomodado em escrever sobre este filme, pois é uma daquelas obras tão imensas e complexas, que realmente não me sinto com capacidade e talento para tal. Fora isto, seria um absurdo ficar detalhando minhas primeiras impressões a respeito do filme, pois qualquer coisa mal escrita, traria a quem ainda não o viu, revelações que só devem ser saboreadas na grande sala escura. É um filme de mistério, de surpresas, que só um cineasta genial conseguiria fazer. Posso até falar uma besteira, mas este filme me remeteu a “Um Corpo Que Cai” do velho mestre do suspense Hitchcock, onde o que vemos na verdade nunca é realmente o que parece, e a tragédia espreita as relações de amor, ódio e dor dos personagens. E sim, cometo a (talvez) heresia de comparar os dois diretores, pois na verdade, acho que com esta obra imensa, Almodovar já merece estar e ficar ao lado do mestre do suspense, honra para pouquíssimos, bem eu sei.
Esta história é contada com idas e vindas ao tempo, forma necessária assim como em “Abraços Partidos”, mas é com “Matador” que vejo maior semelhança dentre as obras do cineasta. A morte e o sexo, - assim como em praticamente todos os filmes do cineasta - se faz mais que presente neste seu último trabalho,que esta mais para um terror. Aqui não cabe a tão usual comédia de seus filmes, mas todas as outras formas usuais (cores, transformistas, machões imbecis) estão presentes.
 Antonio Bandeiras encarna com perfeição seu personagem (Robert Ledgard), um cirurgião plástico, extremamente comprometido com seu trabalho, principalmente depois de ter perdido sua esposa num incêndio e logo em seguida sua única filha. Não é à toa, ele lembra o médico e o mostro, no afã de construir a pele perfeita, a prova de mosquitos e queimaduras. Para isso passa por cima de tudo e quebra todas as regras. Ele sempre é auxiliado por Marilia (Marisa Paredes), sua empregada, que guarda grandes segredos a respeito de ambos. Neste cenário, vemos Vera presa numa espécie de cativeiro, na clinica do médico e ficamos a imaginar o porquê daquilo. O diretor presenteia o público masculino (e feminino também, por que não?) com generosas cenas tesudas de nudez da exuberante Vera, para depois cobrar o preço... Obviamente, o buraco é muito mais profundo do que nossa imaginação consegue chegar. A identidade, ou mesmo a falta dela, permeiam todos os personagens, e com o roteiro, a edição de idas e vindas, e a primorosa direção de Almodóvar, os nós são desatados, e nada era realmente o que parecia.
Ponto para o cinema muxoxo deste, que precisava desse respiro, pois isto é cinema. Ponto para Almodóvar, que nos presenteia com mais um cinco estrelas, um de seus melhores trabalhos, entre os já melhores, demonstrando seu total domínio em sua arte. Quem ainda não viu, corra ao cinema (em DVD é heresia), para ter uma aula de cinema. Amanhã irei de novo, é claro, pois é muita coisa para uma sessão só.

17 de novembro de 2011

O Indomado – Martin Ritt


“Você é um homem sem princípios, Hud”. Diz o pai para o filho, em mais uma das diversas discussões, fato que também desenha um embate entre um país com seu passado, sua história e seu futuro, até então incerto. A América empreendedora, que conquistou o oeste, a democracia e uma moderna constituição se mostra velha, a cargo de uma nova geração que quer se livrar do antigo e construir uma nova forma de viver, mais egoísta, onde as leis são para serem interpretadas livremente, de acordo com o gosto e a necessidade de cada um. Hud é o desenho menos sombrio do que se tornaria o americano típico, engolidor de mercados e economias globais. E entre pai e filho, entre uma América antiga e a nova por vir, fica Lonnie, o neto, que se vê no meio disso tudo. Como diz o avô: “Uma hora você vai ter que escolher entre o certo e o errado, e o caminho a seguir”.
Homer (Melvyn Douglas) é um homem à moda antiga, empreendedor, como aqueles heróis americanos tantas vezes mostrados nos filmes de John Ford, por exemplo, daqueles homens que sabe a constituição praticamente de cor, acredita no trabalho, nos seus princípios e em sua ética. Não aceita perfurar suas terras atrás de petróleo enquanto viver, pois o ganho do homem, segundo ele, tem de vir do esforço da lida, do trabalho braçal. Mas não é um romântico, um bobo qualquer, apenas um homem integro. Um velhinho bom, que qualquer um adoraria como avô, como na cena em que canta junto com o neto no cinema. Cena que faz com que temos vontade de abraça-lo carinhosamente. Mesmo assim, guarda muita magoa dentro de si, depois de perder seu filho mais velho, pai de Lonnie, num acidente de carro em que o filho mais novo Hud conduzia o veiculo.
Hud (Paul Newman), o indomável do título, o oposto do pai, traz em si uma força enorme, uma beleza hipnotizante, mas sua força é movida a egoísmo e egocentrismo. É um beberão sem limites, mulherengo e bonitão por demais. Não há limites para suas vontades, maltrata as pessoas, principalmente aquelas as quais ama e finge não amar.  Sedutor e perigoso, ele parece ter consciência de seu egoísmo destruidor, mas se mostra cada vez mais o avesso do seu avesso, só de birra. Mesmo errado, esta certo, seja qual for o preço a ser pago.
Entre Homer e Hud vive o jovem Lonnie, que entre os embates do sedutor tio e o amoroso e correto avô, se vê dividido, tentando descobrir o certo para si, o seu caminho, na solidão da sua juventude e descoberta de sua libido, de seu desejo de homem em formação. Bem demonstrado no seu relacionamento com Alma, a empregada da casa, pois o que era apenas carinho maternal, aos poucos se transforma em outro tipo de atração, a sexual.
Alias, se Lonnie tem um desejo tímido e inexperiente por Alma, isto não se aplica ao seu tio Hud. Há entre ele e Alma uma atração sexual imensa em todos os momentos em que estão juntos, sendo um show à parte naquele já difícil convívio familiar. Em cada palavra, na maioria de duplo sentido, em cada olhar, em cada gesto de um para o outro. Mas Alma é uma mulher calejada e maltratada pela estrada da vida. Ela sabe que ele é bonito demais, mas perigoso demais. A experiência com outros homens, parecidos ou iguais à Hud, a seguram de se entregar, mesmo que tudo nela diga exatamente ao contrario, pois seu corpo arde em fogo, em desejo, num trabalho sutil e maravilhoso de Patricia Neal (a “decoradora” de Bonequinha de Luxo), que não por acaso ganhou um Oscar mais que merecido, assim como Melvyn Douglas por suas respectivas atuações neste filme.
Uma obra-prima, que tranquilamente você assiste por diversas vezes – eu já vi três vezes – e não se cansa. Emoldurado sobre um preto e branco esplêndido e também ganhador de um Oscar pela fotografia. Sobre homens e mulheres, sobre um país em constante mutação, para o bem ou o mal. Uma obra-prima sobre a América e seus caminhos e descaminhos. Obrigatório para quem diz gostar de cinema.

9 de novembro de 2011

O Palhaço – Selton Mello


Segunda-feira, dia 07/11, cinema lotado às 14h00hs num dos shoppings de Sampa. Não, não é a Mostra, é a promoção do cine nacional à R$ 2,00 a sessão. Quatro filmes assistidos e notadamente um público presente não acostumado à cinefilia, atraídos pelos valores não extorsivos, que lembram os preços praticados nos anos setenta e oitenta, quando – segundo minha mãe – o preço do ingresso era o mesmo da passagem de ônibus. Não é à toa que as pornôs chanchadas faziam tanto sucesso na época. Tá cada dia mais difícil ser um cinéfilo. Como pode uma sessão de cinema custar R$ 20,00? Quem é cinéfilo não vai uma vez por mês ao cinema, muitas vezes vão duas ou mais vezes no mesmo dia. Outro dia estava eu juntando os últimos trocados para uma sessão no Unibanco da Rua Augusta, quando para em frente ao cinema, uma Chrysler preta ainda sem placa de tão nova, e de dentro sai uma linda moça às pressas e encontra com a amiga já na fila na minha frente. Ela se põe a reclamar da lerdeza do motorista e saca sua carteirinha da USP para sua meia-entrada, e eu ainda juntando os trocados para uma inteira, sem sobra nem para o pastel chinês. Tadinha, ela deve ter ficado sem ir ao cinema por estes dias, ocupada nos campus da USP, a pedir junto com os coleguinhas, seus “direitos” e privilégios, como temos acompanhado pelos jornais. É, palhaçada, ou melhor, palhaço, sou eu...
Por falar em palhaço, a julgar pelos quatro filmes que assisti (Uma Professora Maluquinha, OS 3, Família Vende Tudo), sem dúvida o sucesso abraçou este segundo filme de Selton Mello. Sala lotada e público barulhento que no inicio me incomodou, mas com o passar do tempo, fui ficando indiferente, afinal estávamos numa espécie de circo no cinema e o show não pode parar.
O filme começa e não consigo tirar o sorriso do rosto – e olha que sorrir não tem sido ultimamente o meu forte - durante toda a projeção. Meu Deus, que filme lindo, lindo, lindo!Cheio de lirismo, de poesia e (talvez) de uma beleza que quase não existe mais, de um tempo e jeito antigo. Contraponto para aquele circo mambembe, feito na raça, no amor, à procura das últimas crianças ainda inocentes com aquele brilho no olhar. O alimento do palhaço é o riso solto das crianças. Não é à toa que em um certo momento do filme, simbolicamente, a linda e ambiciosa  engolidora de fogo é derrotada pela lindinha garota das asas de anjo. É a pureza vencendo a traição, pois naquele ambiente só deve sobrar espaço para a confiança e fidelidade para com a trupe, que com isso ganha sua sobrevida. Coisa muito difícil já em meio a aquela vida sem dinheiro, sem destino certo, pelas estradas, pelos sertões brasileiros à procura do povo, muito longe das capitais. Faz lembrar com saudade “A Viagem do Capitão Tornado”, obra-prima de Ettore Scola. Salve, salve os últimos guerreiros artistas de circo. Mesmo coma a falta de grana, mesmo coma lona gasta e remendada, mesmo com toda a tecnologia, games e afins trabalhando contra... “o circo chegou/ vamos todos até lá.../ palhaço que é o ladrão de mulher”.
Em  Feliz Natal,seu primeiro filme, inspirado em John Casavettes, Mello foi mais autoral e mordaz, contando a história de uma família em frangalhos num (des)encontro, numa irônica noite de natal. Filme depressivo e triste, não obteve, obviamente, o público e o reconhecimento que merecia. Vale uma revisão.
Em recente entrevista ao programa Vitrine, Selton Mello declarou que se inspirou em dois diretores com os quais já trabalhou e muito admira para este seu segundo filme. Sua ambição seria transitar (ficar no meio termo) entre o cinema popular de Guel Arraes (“Lisbela” e “ O Alto da Compadecida”) e o autoral Luiz Fernando Carvalho da obra-prima “Lavoura Arcaica”. A julgar pelo resultado nas telas, ele consegue mais que isso, pois encontra seu próprio caminho.
“O gato toma leite, o rato come queijo e eu nasci palhaço”. Será um caminho duro para Benjamin (Selton Mello), até entender as palavras do pai também palhaço (Paulo José). Benjamin se sente cansado e - mais até do que o próprio pai com sua velhice –  deprimido, com a vida de circo. Seu desanimo é nítido, principalmente com a parte burocrática de ter que administrar um circo praticamente falido, tendo de “beijar-mão” de cada prefeito em cada cidade em que o circo é montado. Sua ambição é conseguir tirar sua identidade e principalmente comprar um ventilador, coisas simples, mas que são cada vez mais difíceis de conseguir, alimentando cada vez mais sua angustia. “Estou cansado do que sou, e cansado do que não sou”, diz ele, e perdido em si mesmo, em certo momento abandona o circo e sai pelo mundão, a fim de se encontrar, ou melhor, encontrar (talvez) a carteira de identidade e o tão sonhado ventilador. Logo, percebe que é preciso se perder para se encontrar e entende as palavras do pai. O reencontro de pai e filho no picadeiro, a troca de olhares de ambos sem uma palavra sequer já valem o filme. Alias, é nos longos silêncios de Benjamin que mais o entendemos, as coisas não precisam ser ditas, para serem entendidas.
Bom diretor, excelente ator. Selton Mello encarna (tem o João da Ega em Os Maias, mas é minissérie) seu melhor personagem, antes oferecido e recusado por Wagner Moura e Rodrigo Santoro. Sorte a nossa, fica difícil imaginar Benjamin com outra cara, outro jeito. Selton está perfeito, assim como toda a trupe de coadjuvantes que aparecem no filme, em especial Moacir Franco, que rouba a única cena em que aparece nos deixando com gosto de quero mais. Alias, todos da trupe mereceriam um pouco mais, o que me leva a crer que a muito a ser explorado a partir do mesmo roteiro. Não duvido nada que deste filme, surja no próximo ano, uma série na TV Globo. Valeria mil vezes mais do que “ A Mulher Invisível” que acontece no momento na TV e também é uma espécie de continuação de outro sucesso protagonizado pelo próprio Selton Mello.
Um ator em estado de graça, e um baita diretor em formação, cada vez melhor. Onde será que Selton Mello irá chegar... Seja onde for, esta no caminho certo.

28 de outubro de 2011

Trabalhar Cansa – Juliana Rojas e Marco Dutra


Terminada a sessão, sinto um gosto amargo na boca. Verdadeiro terror, para quem já passou por uma situação semelhante, aquela última cena não saiu da minha cabeça. Já não basta a humilhante situação de estar no desespero, pedindo emprego, passar por aquela “dinâmica de grupo” é o fim mesmo, bem sei, ô se sei. Impactante, é um grito que quebra os botões da camisa de linho, que rasga a gravata apertada há tempos no pescoço. Um grito de horror, solitário, em meio à multidão, que serve também para tirar o cinema nacional do marasmo em que se encontra. Do lado de fora do Frei Caneca, no termino da sessão vazia, imenso burburinho na espera das novidades da Mostra anual de cinema. Festa a qual novamente me excluí. Falta de grana, falta de tempo, o sol não aquece a todos e eu me sinto pálido, desmotivado, esperando o bonde que já faz tempo, perdi. Há algum tempo atrás, um terapeuta de plantão me aconselhou a sair por aí, em algum descampado, lugar isolado e amplo, onde não seria preso por loucura ou lucidez excessiva, e berrar, berrar! Soltar os bichos de dentro de mim. Ainda não o fiz, os arranha-céus me impedem. Mas rapidamente me imagino assim como o personagem de Marat Descartes, berrando e batendo no peito feito um macaco. Regressão total, de homem discreto e educado, voltando ao homem de Neandertal. Já pensou, que legal, um homem macaco pulando dentro do shopping em meio aos sorrisos dos modernos e das etiquetas  caras  das finas moças. Soltar um jegue no aterro, na hora do rush, só pra variar, como já dizia Rauzito.
Mas o que fazer quando a situação se torna insustentável  e você não consegue sair da areia movediça em que se meteu? Cadê a corda? Ou mesmo a mínima força de vontade de sair de uma situação aparentemente sem solução? É assim que o personagem se sente. Um homem provedor de meia idade, que vê seu mundo desmoronar quando perde o emprego, e consequentemente toda sua forma confortável forma de viver. Um forte sentimento de inadequação, de pequenez o envolve. Parece até, uma continuação do seu personagem do filme “Os Inquilinos” do subestimado Sérgio Bianchi, onde seu personagem também se vê as voltas com situações – seus vizinhos marginais – com as quais se sente impotente, menos homem mesmo.
Em contra partida, estes não são seus únicos problemas, pois tem o negocio de sua esposa e outros bichos, escrotos. Acostumada a doce vida do lar, em uma vida de calmaria e segurança, sua esposa vivida por Helena Albergaria (ótima atriz, que eu não conhecia), se espelha na nova mulher ativa dos tempos novos e resolve abrir um negócio próprio, se aventurar no trabalho, invertendo a situação da família, e abre um minimercado. Acontece que com isso outros problemas surgem. Na sua nova dinâmica, é obrigada a contratar uma empregada doméstica (bicho estranho, mas sem carteira assinada, e mínimo do mínimo que já tá bom demais!) para administrar seu lar, e seu mercado começa a apresentar vários problemas estruturais. Bichos estranhos pululam das suas paredes, do seu chão, líquidos negros e fétidos, ninhos de minhocas, baratas, vísceras e ossos milenares aparecem para desestruturar sua boa vontade e consequentemente sua relação com todos seus funcionários. Realismo fantástico? Terror psicológico? Alucinações? Tudo se mistura numa equação de difícil entendimento ou solução. Alusões, metáforas para a decadência de uma classe social que rapidamente, precisa se adequar a um novo ritmo social e econômico de viver. Dentro daquele mercado, dentro daquela família, o tal do boom econômico e prospero que decantam jornais, juntamente com o governo atual, ainda não deu as caras. É o mostro invisível, que talvez só o cachorro do vizinho – que insiste em latir o tempo todo – enxerga, que vai minando as forças dela física e emocionalmente.
Cientistas já comprovaram, que se uma bomba atômica acontecer neste mundo de homens vis, só as baratas sobreviverão. Seria então, o mundo no fim, habitado apenas pelos bichos peçonhentos. Alusões à parte, saindo do cinema, uma música não para de tocar na minha mente, que casa perfeitamente com este original e ótimo filme: “Bichos Escrotos/Saia do esgoto/ Bichos Escrotos/ Venham enfeitar/ Meu lar, meu jantar/ Meu nobre paladar”.

10 de outubro de 2011

Atraídos Pelo Crime – Anthony Fuqua


Não vai haver amor neste mundo nunca mais. Pelo menos no Brooklyn, em Nova York, segundo Anthony Fuqua. Neste filme, não há respiro ou alívio para qualquer um dos três policiais que conduzem a trama. É uma descida sem escala até o inferno, sem chance de redenção. Qualquer bairro violento aqui no Brasil parece a Disney, comparado ao que vemos neste filme. Bandido e mocinho se confundem em cores cinza, difíceis de digerir.
A começar pelo policial vivido por Ethan Hawke que – muito parecido com Di Caprio em Os Infiltrados – destila em cada segundo na tela uma urgência desesperada, como se estivesse sendo tragado por um tonel de areia movediça. De família italiana e extremamente católica, depois de realizar uma “justiça alternativa”, tenta se confessar e não se conforma apenas com o perdão de Deus, ele quer também sua ajuda. Mas suas atitudes o colocam cada vez mais distante das cruzes que o perseguem. Para tentar ajudar a família numerosa a melhorar de vida, se vê cada vez mais distante de Deus e próximo ao inferno. É um caminho sem volta.
Já o policial vivido por Don Cheadle se vê a tanto tempo infiltrado no crime organizado, que começa a questionar de que lado realmente esta. Conhecedor da burocracia e corrupção que toma de assalto à instituição para a qual trabalha e até então acreditava, se vê entre a cruz e a espada quando tem que entregar um amigo do crime vivido por Wesley Snipes. Sabe que mesmo não estando do lado certo – qual é o lado certo num mundo cheio de erros? – uma amizade sincera é um tesouro difícil de abrir mão. Mas acima de tudo, o que ele quer desesperadamente é sua vida de volta, talvez até tentar reconquistar seu casamento fracassado. Mas o tempo sem sua identidade verdadeira lhe cobrará um preço alto, talvez até seja tarde demais.
Já o terceiro policial vivido por Richard Gere, é tão ou mais complicado que os outros. Faltando apenas uma semana para a sua aposentadoria, ele mais parece uma pessoa sem emoção, sem alma. Os vinte e tantos anos dedicados a sua profissão, lhe foram tirando ano a ano, seu sangue, sua cor. E principalmente a crença na vida e nos outros seres humanos. É tido como covarde pelos outros policiais. É notório que os anos na corporação lhe tiraram a esperança de que algo ao alguém possa melhorar. Tanto faz estar vivo ou morto, pois já se sente morto em vida, e demonstra isso fazendo roleta-russa pelas manhãs junto a um copo de uísque. Mesmo que (sem querer) aos quarenta e cinco do segundo tempo, a vida lhe conduza a um ato heroico, que até pudesse lhe trazer algum alento, ele olha logo após diretamente para a câmera, dizendo com os olhos pesados: “E daí?” Como se o que acabará de fazer  é muito pouco diante do irreversível horror da vida. Sua alma perdida se confunde com o que presencia diariamente.
No seu filme anterior “Dia de Treinamento”, Fuqua conseguiu sucesso e reconhecimento, assim como Denzel Washington conquistou seu merecido Oscar por viver (também) um policial corrupto. Mais uma vez ele acerta a mão, se mostrando um grande diretor de atores, extraindo de seus protagonistas, grandes interpretações que por si só já valem o filme, com destaque para Ethan Hawke. Mas talvez o que explique o fato deste filme, superior ao anterior, não ter feito o sucesso merecido é o clima de desesperança e desalento que o permeiam. Corajosamente, não há concessões, nem esperanças de dias melhores. Um pouco demais para uma América em frangalhos economicamente. Uma América que aos poucos descobre que já não carrega mais o bastão da vitória, do primeiro lugar do pódio. Onde estão os velhos e bons heróis americanos? Certamente não estão no Brooklyn, nem na policia americana, segundo este talentoso diretor que consegue a proeza de fazer mais um filme policial, com seus clichês contumazes, mas com talento consegue fugir do lugar comum, com uma obra triste, mas acima da média.

4 de outubro de 2011

Bonequinha de Luxo – Blake Edwards


Aquela sensação maravilhosa de se assistir a um filme imenso, delicioso e emocionante, aconteceu com este filme, que estava guardado, esquecido na prateleira lá de casa há tempos. Este é um daqueles filmes que por puro preconceito, fui deixando de lado, para assistir um dia qualquer, quando não tivesse algo melhor. Quanto engano. Achava que pelo título original, ou pelo que eu ouvia falar, seria um filme ligado à moda, ou de uma maneira geral ligado a futilidades. De novo, que engano. Devo dizer que não sei, não compreendo, meu tico e teco não conseguem entender esta coisa, este glamour ligado à moda, aquelas moças esqueléticas passando na passarela e pessoas sentadas aplaudindo aquilo, aquelas roupas esquisitas que ninguém em sã consciência usaria. Que graça tem tudo aquilo? Não entendo. No meu inconsciente ligava este filme a este mundo. Um erro, grande erro.
Na verdade, este é um filme para ser visto e revisto com verdadeiro deleite. A futilidade passa longe. Da lugar a uma sutil elegância  e a beleza mágica do encontro. Da descoberta do outro e de si próprio. O encontro entre dois vizinhos e são eles Holly (Audrey Hepburn, esplêndida) e Paul (George Peppard), dois perdidos, dois solitários, que apesar do contato intenso com outras pessoas, pouco a pouco, só se acham junto a alguém quando ficam juntos. São dois (elegantes) sobreviventes, erroneamente classificados como garotos de programa. Seria perfeito chama-los de “malandros” como naquela velha maneira carioca de viver, tempos atrás. Ela conseguindo enrolar seus acompanhantes com os cinquenta dólares para ir ao toalete. Ele, sendo patrocinado por uma “decoradora” enquanto procura inspiração para seu segundo romance. Eles apenas se viram- com muita elegância, é claro - como podem. Que mal a nisso? As pessoas têm dentro de si tantos matizes de cores, que fica muito difícil defini-las. Quanto de amor e dor cada um carrega dentro de si? Holly se intercala entre a futilidade, a ingenuidade e a pureza, entre outras coisas, como numa corda bamba. Quem não faz isso?
Só indo atrás de um antigo clássico, para se assistir com clareza a um filme com um enredo tão bem construído e diálogos tão deliciosos. São muitas as cenas antológicas, como quando Holly e Paul se conhecem e em poucas palavras ela se descreve a ele, como uma pessoa sem posses ou vínculos, até o dia em que encontrar o “seu lugar”, que não sabe ainda qual é, sendo assim, nem seu gato tem um nome, pois como ela, esta ali ao acaso e por isso nem sequer tem um nome.
“Ela é uma impostora, mas uma impostora autentica”. Assim Holly é definida por um advogado vivido por Martin Balsan, para Paul, na cena da festa, e que festa. Parece que Edwards se especializou nestas cenas de festas e junto com Peter Sellers, seu parceiro em outras aventuras, como no hilário “Um Convidado Trapalhão” fez outras cenas de festas tão hilárias quanto esta. É de morrer de rir a cena em que uma moça em meio à bagunça, fica se olhando no espelho e ri pra valer, para em seguida começar a chorar ao espelho sem parar, já vale o filme. Assim como na compra do presente por dez dólares na tal da conceituada Tiffanys.
O drama também tem seu lugar no emocionante encontro entre Lulla Mae e o Doutor. Mas acontece que já não existe mais Lulla Mae, apenas em alguns momentos, como quando Holly canta “Moon River” na janela de seu apartamento e Paul se vê definitivamente apaixonada. Quem não ficaria? Interessante saber nos extras que os produtores queriam tirar esta cena da canção do filme, e com isso compraram uma briga imensa com a miúda Hepburn, que virou uma leoa defendendo sua cria. Ela venceu, e esta se tornou uma das cenas mais celebres do cinema em todos os tempos.
Por fim tem a cena final, com o gato na chuva, que eu sem vergonha nenhuma assumo que chorei e ri ao mesmo tempo. Deliciosamente chorei e lavei a alma de cinéfilo que pedia um filme assim tão fabuloso. Tão romântico.
Penso se assisti algo semelhante recentemente, e não acho nada similar, mas também os tempos são outros. A velocidade do mundo, da comunicação, da internet, nos tomando, talvez não permita algo assim. Mas sou um nostálgico. Sendo assim, talvez por penitencia, por só agora descobrir este tesouro da sétima arte, assisto novamente. Quem não viu veja, urgentemente, mesmo achando ser um filme de “mulherzinha”.
Ah! Lulla Mae, a tantas coisas pra se ver. E eu também estou procurando o arco-iris, logo depois da chuva.