12 de dezembro de 2006

Veludo Azul – David Lynch


Bela manhã numa cidade do interior. O caminhão de bombeiros passa pela rua, roseiras lindas são mostradas, enquanto ao fundo Blue Velvet toca , numa versão anos 50.Ah! Como é bela e pacata a vida na América! Um gigantesco comercial de margarina.Uma mangueira d` água enguiça,seu dono tem um colapso, o cachorro se esbalda com a água que jorra, o homem no chão. Não nos enganemos, este é um filme de Lynch.A aparente vida perfeita passa... Vemos Jeffrey (Kyle MacLachlan) caminhando , ele acha uma orelha no gramado, próximo à sua casa. Dia claro e belo na vida do rapaz.Logo virão as escuridões...

Como é bom rever um filme como este, que completou, por incrível que pareça, vinte anos, e permanece atual. Lembro de tê-lo assistido muito jovem e ter ficado excitado com a carga erótica e violenta do filme. Passado todos estes anos, o filme melhorou, e muito, na revisão. Uma obra-prima total, mesmo em DVD. Talvez até, o melhor Lynch, depois da revisão (vou ser obrigado a rever tudo).

Jeffrey é um curioso, procura a policia. Numa noite, saí do seu quarto claro e confortável, e vai à casa do Detetive Willians (George Dickerson), saber sobre o caso da orelha. Na saída da casa, alguém aparece da mais total escuridão... Sandy (Laura Dern)! Aparece toda loira e linda,e enche a noite com sua candura. Logo, ambos se vêem envolvidos num caso de tráfico, sexo,assassinado e seqüestro. Coisas que não habitavam o mundo perfeito e inocente dos jovens.

Sandy e Jeffrey decidem investigar o caso da orelha, por conta própria, afins de aprenderem mais sobre a vida. Não sabem que a partir de então, tudo mudará radicalmente em suas vidas. Ele entra no apartamento de Doroth Vallens, cantora de cabaré. Logo se vê envolvido numa situação inédita, entre o medo e o sexo, numa relação sadomasoquista. Eis que chega Frank Booth (Denis Hopper, fantástico), com toda sua carga escura e perigosa. Jeffrey, escondido no armário, não acredita no que vê. Uma outra vida lhe é mostrada, através das frisas do armário. Frank toma Doroth igual a um animal (“Mamy, baby quer trepar”) e transa com ela, entre porradas e berros, que ela claramente parece gostar.

Frank vive na escuridão (“está escuro aqui”), uma alma perdida em meio a seus próprios demônios, Cada ação importante sua é precedida por uma dose de oxigênio, que ele carrega em sua cintura junto a uma máscara. É como se ele não conseguisse respirar mais, no mundo fétido, que ele próprio ajudou a criar.No abismo que ele próprio criou para si, só encontra alento, quando escuta suas canções preferidas, sendo uma delas, a música que dá nome ao filme: Blue Velvet, interpretada pela própria Doroth Vallens, e a outra é um clássico de Roy Orbison que, numa cena antológica, é dublada por Bem (Dean Stockwell) um amigo gay de Frank. É impressionante o trabalho de Dennis Hopper nesta cena, enquanto a música é dublada, Frank sente cada acorde, cada palavra da música, lhe penetrar as profundezas de sua alma.É a pureza das doces palavras da canção lhe remetendo a algo que ele já há muito perdeu, em conflito com sua alma em decomposição. Em certo momento ele diz a Jeffrey: “Você é igual a mim”. Ele, mas do que ninguém, sabe até que ponto escuro um homem pode descer. Na sua loucura e criminalidade, ele vive em pleno umbral na terra.

Já Doroth, totalmente dominada por Frank, parece buscar na dor física, um alento para a dor que lhe toma por dentro. Como se a dor das porradas lhe anestesiasse, para a verdadeira dor que sente. Isso fica claro, quando ela e Jeffrey pretendem transar (“Toque em mim... Toque em mim... Bata em mim!”)e ela só consegue isso mediante uns tabefes.Mesmo o amor que ela almeja, tem que ser punido.Uma linha tênue que separa a dor e o prazer.

Já Sandy é a ponta ingênua (mas não burra), desta teia em que se amarram todos os personagens. Quando Jeffrey lhe conta tudo o que presenciou no apartamento de Doroth (“Sandy, porquê existem pessoas como Frank no mundo?”), ela ainda conta dos seus sonhos com pintassilgos e outros pássaros. Até então, ela ainda sonha. Para logo adiante, já no final do filme dizer: “ O que foi feito dos meus sonhos”. Não existe comiseração nos sonhos (filmes) malucos de Lynch, nem a mocinha escapa.
Mas depois do terremoto e do mal que passa pela vida deles. Tudo volta aparentemente ao normal. Os bombeiros passam sorrindo pela vizinhança. E até um pintassilgo pousa na janela da casa do novo casal num dia ensolarado de domingo. Até que apareçam outras escuridões e outros Franks, para abalar o frágil sonho americano de ser,

Um filmaço, uma obra-prima! Val Kilmer deve estar se remoendo até hoje por não ter feito o filme, já que Lynch havia feito o papel de Jeffrey para ele.Um daqueles filmes que, quando terminam, você já tem vontade de rever, tamanha originalidade e talento desse diretor único. Até parece ser outro filme, muito melhor, depois de anos. Sorte a minha ter o DVD.
ps: Acho que é a primeira vez em anos, que passo mais de uma semana sem ir ao cinema. Muito serviço e muitos problemas... Tá começando a dar tremedeira.

4 comentários:

  1. Como você próprio já disse: filmaço! Aliás, eu sou suspeito para falar de David Lynch. O que dizer de Coração Selvagem, O Homem-Elefante e Mulholland Drive: Cidade dos Sonhos? Não sabia que o ator Val Kilmer havia sido sondado para o filme! Abraços do crítico da caverna.

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  2. Lynch é o maior diretor de cinema vivo.

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  3. Fala cavernoso, beleza? Acaba tendo muito fundamento o que o Ailton disse. Lynch está entre os grandes diretores vivos do cinema contemporâneo, se bobear entra entre os cinco mais fudidões. Estou com muita vontade de rever toda sua obra, creio que todos os filmes irão crescer.

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  4. Foi o melhor que filme que já assisti a trilha sonora não podia ser melhor é totalmente seleta!

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