12 de agosto de 2011

Melancolia – Lars Von Tier

Melancolia: Psicótico; maníaco depressivo; estado de humor caracterizado por uma tristeza vaga e persistente.
Não sei qual a sensação de ter tudo o que quero, ou o que é dito socialmente, que é o que devemos querer. O que é uma vida de sucesso? Sei de um sonho que já tive algumas vezes, sonho recorrente, recente, e muito vivo na minha memória. Nele, finalmente encontro a tal da cara metade, uma moça morena que não conheço, nunca vi, mas no sonho é incrivelmente íntima, ligada ao ideal de amor, causadora de alivio a uma das minhas mais tristes angustias. Eu a conquisto, eu (finalmente) a tenho, e a sensação de alivio e felicidade que chega com este objetivo alcançado, dura quase nada. No seu sorrido de entrega, quando vejo que a conquistei, não só seu corpo, mas sua alma, seu amor, uma sensação de vazio se apodera de mim, me arrebata de forma imensa. A conquista vira um pesadelo, uma responsabilidade impossível de carregar, sinto meus pés encharcados na lama. Sinto-me perdido por ter e, ao mesmo tempo ver que (talvez) não queira aquilo, que era uma fantasia. Mas é tarde, ela é minha, mas não sou dela e muito menos sou meu mesmo, pois de repente, não me reconheço. Nem lá, nem cá, só os pés na lama. Acordo, triste pelo sonho (ou pesadelo), triste pela vida.
Lembrei-me deste sonho que tive, logo quando assisto ao prólogo deste filme, em que cenas lindas, que por si só já valem o ingresso, descompassadas no seu ritmo, se mostram oníricas, e me apresentam Justine, e seu olhar, seu olhar, seu olhar... Tão angustiado, só por ele, acredito, Kirsten Dunst já mereceu seu prêmio de melhor atriz em Cannes neste ano.
O filme mostra o casamento de Justine, digno dos sonhos de qualquer Cinderela. Tudo lindo e luxuoso, presente do cunhado rico. E tudo parece dar certo e ser certo. Um castelo, um noivo lindo (o vampiro galã da série True Blood), romântico e apaixonado. Uma  promoção no emprego, entre os presentes ganhos. Tudo certo  para uma vida perfeita. Mas seu sorriso é cada vez  mais amarelo, pois a cobrança por sua felicidade, a obrigação de ser feliz, pesam muito, e tudo começa a se modificar dentro dela, aos poucos. Tudo vira um fardo. Tudo que lhe é dado em excesso se torna sem sentido. É a melancolia que a toma, e todo circo social armado para ela desmorona.
A limusine não cabe na esquina e nem faz curva. As terras compradas pelo noivo, onde deveriam cultivar e florescer a nova feliz família fica no sofá, no retrato.
O sintoma de que algo daria errado se mostra, desde o inicio, nas atitudes dos pais de Justine, seja através do deboche do pai bonachão, ou através da negação à todo aquele formalismo pela mãe, que não acredita em nada daquilo, e constantemente é expulsa pelo genro, convencional até a medula.
Não por acaso, este é marido de Claire (Charlotte Gainsbourg), a irmã de Justine e a outra personagem  que protagoniza o filme em sua segunda parte. Interessante que se o desconforto de Justine se faz com o decorrer da festa, o de Claire se mostra desde o inicio. É o medo de que todas as convenções a que se apega, não funcionem. Ela é o outro lado de Justine, o outro lado da moeda. Enquanto uma explode por dentro, a outra explode por fora, com seu medo de que o mundo perfeito que tenta construir e vivenciar, se exploda, como de fato acorre, fatalmente. Não consigo desassociar Claire, do que Inácio Araujo escreveu tão bem em sua coluna na Folha de São Paulo. Claire é o mundo perfeito, constantemente ameaçado pelos perigos em que vivemos hoje, seja através do neonazista norueguês, seja através dos incêndios ingleses, seja a crise econômica europeia e americana. Claire e Justine, cara e coroa; duas fases da mesma moeda, e uma melancolia que assombra o mundo.  Por um lado existe a depressão emocional, e seus comprimidos antidepressivos; por outro, uma crise sem procedentes que assola a segurança e o conforto de quem como Claire, segura no seu mundo perfeito, jamais pensou existir. Interior e exterior, tudo fora da ordem. O marido no pasto, junto aos cavalos, me lembra daqueles homens ricos da crise da bolsa de 39. Mas esta é só uma interpretação que faço sobre Claire. A segunda parte do filme, mais complexa, mais filosófica (e melhor), foge das minhas pobres compreensões à cerca da vida e do mundo.
Mas o que é maior? A melancolia de Justine? Aquela sensação do nada absoluto, com o seu ser, onde nada faz sentido. Nem no mundo, nem em Deus. Eclodindo tudo num vazio existencial absoluto. Ou o vazio de Claire? Aquele que remete a um fim do mundo mesmo, pelo fato do mesmo estar cada vez mais sem sentido, sem controlo, seja pelo terrorismo, ou egoísmo, ou poder do homem que é lobo do homem.
Enquanto Claire se desespera pela eclosão do mundo com a melancolia. Justine (em outra cena linda) se conforma, não sofre mais, e nua e linda, se banha a luz inevitável e cada vez mais presente do fim.
Vale a pena mencionar o personagem que faz o papel do chefe de Justine – capitalismo atroz – que em meio ao seu casamento a “presenteia” com uma promoção (chefe de criação) e com isso exige dela um slogan em meio à festa. Autorretrato, ironia, brincadeira que Lars von Tier faz de si mesmo. Já que é bastante conhecido o fato do diretor exigir o “sangue” de suas atrizes em seus filmes, deixando-as traumatizadas. Que o digam, Nicole Kildman e Bjork, que já declararam preferir o diabo, ao diretor na frente delas. Alias, não sou nem um pouco fã do cinema deste diretor, para mim, um sádico, para não ficar falando mal, digo que gostei muito de “Ondas do Destino” e só. Mas me dobro em reconhecimento a este seu último lamento depressivo. Dizem ser seu filme mais pessoal. Ele não exagera nas tintas, e mistura muito bem, sonho e realidade. Lindo, onírico, no ponto certo. Para ver e rever, já que tão singular em meio a tantas bobagens.
Penso novamente no meu sonho (ou pesadelo), nas minhas melancolias e agonias. A ânsia por encontrar meu lugar, um porto seguro nos meus descaminhos. Minhas esperanças... E lembro-me daquele olhar, daquele olhar, daquele olhar...

5 comentários:

  1. Texto de Arrepiar Beto! PArabens, gostei desse filme tb, um dos melhores do ano!

    ResponderExcluir
  2. Valeu, Celo. Meio pessimista, mas nada comparado ao filme né, hehehe.

    ResponderExcluir
  3. Medo...
    Vontade de dar um grito,
    ou calar-se para sempre
    De ficar parado, ou correr
    De não ter existido
    ou deixar de existir (morrer)
    Não há razão quando a mente não funciona
    (redundante, não?)
    Vão extinguindo-se as questões
    mesmo sem respostas
    Perde-se, neste estágio,
    a vontade de saber.
    O futuro é como o presente:
    É coisa nenhuma, é lugar nenhum.
    Morreu a curiosidade
    Morreu o sabor
    Morreu o paladar
    parece que a vida está vencida
    Tenho medo de não ter mais medo.
    Queria encontrar minhas convicções...
    Deus está em um lugar firme, inabalável,
    não pode ser tocado pela nossa falta de confiança
    Até porque, na verdade, confio nele
    O problema é que já não confio em mim mesmo
    Não existe equilíbrio para mentes sem governo
    A química disfarça, retarda a degradação
    mas não cura a mente completamente
    e não existem, em Deus, obrigações:
    já nos deu a vida, o que não é pouco,
    a chuva, o ar, os dias e noites
    Curar está nele, mas, apenas retardaria a morte
    já que seremos vencidos pelo tempo
    (este é o destino dos homens)
    e seremos ceifados num dia que não sabemos
    num instante que mira nossa vida
    e corre rápido ao nosso encontro lentamente
    (ou rasteja lento ao nosso encontro rapidamente?)
    Sei lá...
    Mas não sei se quero estar aqui
    para assistir o meu fim
    Queria estar enclausurado, escondido...
    As amizades que restam vão se extinguindo
    e os que insistem na proximidade
    são os mesmos que insistirão na distância,
    o máximo de distância possível.
    A vida continua o seu ciclo
    É necessário bom senso
    não caia uma árvore velha, podre, sobre as que ainda estão nascendo.
    Os que querem morrer deixem em paz os que vão vivendo
    Os que querem viver deixem em paz os que vão morrendo
    Eu disse bom senso?
    Ora, em estado de pânico não se encontra bom senso
    nem princípios, nem razão, nem discernimento,
    nem força alguma
    Torna-se um alvo fácil
    condenável pelos que estão em são juízo
    E questionam: onde está sua fé?
    e respondo: ela estava aqui agora mesmo...
    ela não se extingui, mas parece que as vezes se esconde de mim...
    o problema é que, quando a mente está sem governo
    (falo de um homem enfermo)
    é como um caminhão que perde o freio
    descendo a serra do mar...
    perde-se o contato com a fé e com tudo o que há...
    e por alguns instantes (angustiantes)
    não encontramos apoio, nem arrimo, nem chão, nem parede, nem mão...
    ah... quem dera, quem dera...
    que a mão de Deus me sustente neste instante...
    em que viver é tão ou mais difícil que conjugar todos os verbos...
    porque sou, neste momento
    a pessoa menos confiável para cuidar de mim mesmo...
    tenho medo, medo...
    medo de perder o medo
    de sair da vida pela porta de saída...
    medo de perder o medo
    de apertar o botão "Desliga"...

    http://progcomdoisneuronios.blogspot.com

    .

    ResponderExcluir
  4. Cara, seu melhor texto nesse blog. Parabéns. Ótimas reflexões sobre um filme igualmente complexo, de narrativa não-convencional (como você). Grande abraço.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Valeu, Alê. Realmente, acho que este texto ficou bom. Preciso praticar mais, hehehe. Valeu a visita.

      Excluir